Entrevista a Eliseu Frazão

Entrevista a Eliseu Frazão, Administrador da Fravizel Metalomecânica, S.A.

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Eliseu Frazão, Administrador e Fundador da Fravizel Metalomecânica, S.A.

Começando na década de 1980 como uma oficina de serviços de assistência e reparações dirigidos essencialmente às indústrias extractivas e transformadoras de rocha existentes nos distritos de Leiria e Santarém, a empresa fundada por Eliseu Frazão (AF – Auto Frazão, Lda.) viria a dar origem a uma estrutura fabril apta a desenvolver acessórios e máquinas para sectores produtivos diversos – a Fravizel Metalomecânica, formada em 1998.

Após a afirmação no mercado nacional, a marca Fravizel iniciou um bem-sucedido processo de expansão externa: Brasil, França, Espanha e mais recentemente Angola são mercados basilares numa “estratégia de globalização gradual e equilibrada”. Seguindo uma postura de proximidade aos clientes assente na pesquisa de soluções que favoreçam as suas actividades, é hoje uma empresa industrial que investe um volume significativo dos recursos que gera nas áreas de Investigação, Desenvolvimento e Inovação.               

Começando como uma estrutura de serviços oficinais de manutenção e reparações, que factores considera terem sido decisivos para criar uma organização de cariz industrial? Consegue descrever sucintamente o processo?

Na altura em que começámos – há 30 anos – havia uma necessidade premente de serviços de suporte técnico nos sectores com que estamos interligados – sobretudo a área da extracção de rocha – e foi a reparar, digamos até a resolver os problemas existentes, que surgiriam seguidamente solicitações para a produção de equipamentos. Aproveitámos essa oportunidade estudando soluções que proporcionassem benefícios aos nossos clientes, melhorando determinadas operações realizadas nas pedreiras – essencialmente tendo em vista a economia de recursos e a rentabilidade.

Qual foi o primeiro equipamento que produziram? Resultou de uma encomenda à empresa ou seria elaborado para comercialização posterior?

esquerda: Conjunto de patolas para movimentação de blocos de rocha – o primeiro equipamento fabricado pela empresa ainda sob a marca AF direita: Vira-blocos eléctrico para rodar blocos de pedra possibilitando melhor aproveitamento no corte – a primeira máquina a ser fabricada pela empresa ainda sob a marca AF

esquerda: Conjunto de patolas para movimentação de blocos de rocha – o primeiro equipamento fabricado pela empresa ainda sob a marca AF direita: Vira-blocos eléctrico para rodar blocos de pedra possibilitando melhor aproveitamento no corte – a primeira máquina a ser fabricada pela empresa ainda sob a marca AF

O primeiro equipamento que fabricámos foi um conjunto de patolas para movimentação de grandes blocos de rocha, facilmente acopláveis à pá carregadora utilizada para esse efeito. Essa encomenda resultou mais uma vez do interesse em colmatar uma necessidade específica de um cliente e representou, de certa maneira, o ponto de partida para a actividade fabril que viríamos a desenvolver. Quanto à primeira máquina que concebemos e produzimos foi um vira-blocos – meio destinado a facilitar os trabalhos de processamento dos blocos de rocha evitando igualmente que se danifiquem.

O âmbito do suporte técnico manteve a mesma relevância não obstante a transição para o fabrico? São operações completamente distintas ou entende que se interligam necessariamente?

Como a nossa experiência foi essencialmente adquirida no terreno, sempre em situações de trabalho no dia-a-dia e através das reparações realizadas a equipamentos utilizados pelos clientes, na nova vertente do fabrico necessariamente mantivemos o sentido de prestar um suporte técnico próximo – uma cooperação constante com o intuito de criar e melhorar meios de trabalho úteis e que produzissem benefícios para os utilizadores.

O profissional que contrata o serviço de manutenção ou a reparação é o mesmo que adquire um determinado equipamento?

Processo de soldadura de um Balde Rocha para escavadora

Processo de soldadura de um Balde Rocha para escavadora

Pode ou não ser. Mas quando se trata de pequenas empresas, que foi o nosso mercado inicial, é muito comum isso suceder, sim!

Que aspectos restritivos enfrentou para formar a estrutura fabril? Como era a conjuntura nos sectores extractivo, de construção e obras públicas na altura em que começaram a fabricar equipamentos sob a vossa marca?

Destaco fundamentalmente um factor restritivo que foi a escassez de capital, apesar do trabalho ser intenso, uma vez que as encomendas excediam sempre a capacidade produtiva de que dispúnhamos. Devido a carências em termos de liquidez seria logicamente difícil investir no crescimento.

Em 1998 a conjuntura no sector extrativo era bastante favorável. Havia que satisfazer exigências de produção crescentes, existia proximidade geográfica da nossa parte devido a estarmos implantados numa zona em que a extracção e transformação de rocha é uma actividade crucial e estávamos inseridos num âmbito económico emergente.

Algumas máquinas de movimentação de terras nas instalações industriais da empresa para serem equipadas com acessórios Fravizel

Algumas máquinas de movimentação de terras nas instalações industriais da empresa para serem equipadas com acessórios Fravizel

No que respeita ao sector das Obras Públicas, no qual a economia portuguesa se apoiou durante muitos anos devido à construção de novas infraestruturas, também havia dinamismo e a procura daí resultante. Acho, no entanto, que o nosso acesso foi mais difícil devido à dimensão das empresas. Deparámo-nos sobretudo com dificuldades inerentes a exigências de crédito que a nossa organização jamais poderia satisfazer, mas mesmo assim conseguimos estabelecer óptimas relações comerciais com muitas construtoras.

Em sua opinião, o que poderia reforçar a competitividade externa da metalomecânica nacional? Que desvantagens concorrenciais observa?

Reforçar a competitividade é fundamental, criando flexibilidade em relação às necessidades do mercado e estando atentos à sua evolução – a novas exigências. Investir na formação de quadros especializados, em inovação e no fortalecimento da capacidade produtiva são também aspectos que considero essenciais.

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A Fravizel integra a rede Cotec- Associação Empresarial para a Inovação

Algumas das desvantagens concorrenciais enfrentadas que observo presentemente são a notoriedade das marcas italianas, no caso do sector da transformação de rocha natural, menor capacidade produtiva face a outros países industrializados – em qualidade competimos –, estratégias de negócio por concorrência directa baseada na cópia, burocracia na execução de patentes e, infelizmente, inúmeras limitações absurdas à expansão de negócios: processos de licenciamento morosos e complexos que liquidam logo à partida muitas iniciativas dinamizadoras por parte dos empresários.

Quais são os valores que considera hoje associados à marca Fravizel?

Através de inovação, qualidade e assistência, devido ao seu amplo portefólio de negócios e ao seu conhecimento, a Fravizel dedica-se inteiramente a conseguir facilitar o trabalho dos seus clientes. Mantemo-nos como um “problem solver”, queremos sempre solucionar problemas e contribuir para melhorar processos de trabalho.

No essencial, a que actividades é direcionada a gama desenvolvida?

A gama de produtos desenvolvida é direccionada a mercados como o da extracção e transformação de Rocha Natural, Minas, Obras Públicas e Construção Civil, fileira Agro-florestal, Agricultura, Operações Portuárias – Dragagens e Movimentação – e Indústria de um modo geral. Nas linhas actuais da Fravizel existe uma diversidade alargada de acessórios para máquinas de movimentação de terras, equipamentos para vários trabalhos realizados na extracção e transformação de rocha natural, mas também desenvolvemos máquinas perfuradoras, para corte de blocos e aproveitamento dos desperdícios originados nos processos transformativos.

Eliseu Frazão a receber o prémio PME Inovação atribuído à Fravizel e entregue pelo Presidente de Assembleia da COTEC – o Sr. Presidente da República Aníbal Cavaco Silva

Eliseu Frazão a receber o prémio PME Inovação atribuído à Fravizel e entregue pelo Presidente de Assembleia da COTEC – o Sr. Presidente da República Aníbal Cavaco Silva

A produção actual reflecte as necessidades dos diferentes sectores a que se destina ou há inovações e desenvolvimentos técnicos que originaram novas metodologias de laboração?

Existem inovações e desenvolvimentos técnicos que são transversais a toda a organização. Desde a necessidade do cliente detectada pelos comerciais, até à forma como são produzidos os acessórios e equipamentos. A cultura de inovação é uma das nossas preocupações centrais.

Na vossa linha de fabrico existe algum equipamento que realce como diferenciador?

Posso mesmo realçar vários, desde acessórios como o Tomba Bancadas, o Rachador Arranca Cepos, entre muitos outros, mas igualmente máquinas como a Máquina de Perfuração com Rastos controlada remotamente, Máquinas de Fio Diamantado sobre rastos, autónomas, ou um Carrega-Contentores. Como referi, a nossa gama actual é bastante diversa em modelos e funções a que se destinam.

Tomba Bancadas: equipamento destinado a derrubar bancadas de rocha até 2000 toneladas usando apenas uma máquina e num processo mais rápido - produto patenteado

Tomba Bancadas: equipamento destinado a derrubar bancadas de rocha até 2000 toneladas usando apenas uma máquina e num processo mais rápido – produto patenteado

De que forma têm contrariado a instabilidade verificada desde o começo da década transacta, sobretudo no sector da construção? O domínio da extracção e transformação de rocha foi afectado ou é uma realidade distinta?

O sector da construção foi realmente afectado em Portugal e Espanha, sobretudo desde 2008 devido à crise económica, o que nos gerou grandes dificuldades financeiras. O mesmo não se passa com o sector extrativo que é dependente de mercados externos com grande poder de compra e que têm mantido um nível de procura ascendente.

Qual foi o primeiro mercado externo para onde comercializaram? Como conheceram a Fravizel? Em sua opinião, que factores competitivos determinaram a aquisição a um fabricante português?

O primeiro mercado externo com que estabelecemos relações comerciais foi Espanha. Os clientes conheceram a Fravizel devido à presença em feiras de construção e rocha natural em Madrid, Saragoça e Valência. Como factores competitivos destaco a originalidade e utilidade dos equipamentos que apresentámos, mas igualmente a sua qualidade de fabrico.

Exportação direta e indireta da Fravizel até ao ano de 2013

Exportação direta e indireta da Fravizel até ao ano de 2013

Houve mais compras por parte desses clientes? O fenómeno de “contágio”, ou seja, o acréscimo de vendas para o mesmo mercado verificou-se? No vosso caso específico, sente que quem adquire fomenta posteriormente mais negócios?

Houve continuidade. Devido à nossa capacidade de adaptação às necessidades dos clientes eles acabam por tornar-se no principal embaixador da marca Fravizel. Sabem que, qualquer que seja o desafio proposto, iremos dedicar-nos com todas as nossas forças a solucioná-lo.

Com que países têm presentemente relações comerciais e quais são os sectores-alvo?

Exportamos directamente para 15 países, sendo o Brasil, Angola, França e Espanha os mercados mais relevantes. Os sectores-alvo da Fravizel são os mesmos que já referi, abrangendo a Rocha Natural, extracção e transformação, Minas, Obras Públicas e Construção Civil, Floresta, Portos e Indústrias variadas.

Instalações industriais da Fravizel Metalomecânica, S.A, em Pé da Pedreira, Alcanede, Santarém

Instalações industriais da Fravizel Metalomecânica, S.A, em Pé da Pedreira, Alcanede, Santarém – www.fravizel.pt

Em relação ao mercado angolano, um território imenso e onde existe forte dinamismo nos âmbitos mineiro e de construção já em várias regiões, que expectativas têm?

Existe um grande potencial nas áreas de extração e construção e a Fravizel tem capacidade de as colmatar com projetos chave-na-mão em virtude da extensa gama de produtos e know how adquirido.

Quais serão os âmbitos operacionais da vossa empresa Coremaq em Angola? Onde estará sedeada?

A Coremaq está estabelecida no Lubango, em proximidade a um importante núcleo de extracção de granito preto. Os âmbitos operacionais serão fundamentalmente baseados nas nossas competências técnicas: a assistência e manutenção de escavadoras, pás ou dumpers, a comercialização de acessórios e máquinas para extracção e transformação de rocha ou utilizados na construção de infraestruturas, a revenda de consumíveis de pedreira, componentes, lubrificantes, máquinas industriais, mas também outros serviços de apoio nos quais a nossa experiência seja uma mais-valia para os clientes.

Vista interna da nave industrial consignada à montagem de máquinas

Vista interna da nave industrial consignada à montagem de máquinas

O acesso a mercados próximos com expressão inglesa e francesa está nos vossos planos? 

Planeamos uma expansão equilibrada. Consideramos como mercados igualmente interessantes alguns países da África de expressão francesa, inglesa e claro os lusófonos, mas também outros não tão próximos mas importantes na nossa estratégia de crescimento externo, na América Central e do Sul, de expressão portuguesa e espanhola.

Nos domínios técnicos que a Fravizel contempla existem dinâmicas de globalização? Por exemplo, uma pedreira no Chile ou uma exploração florestal em Madagáscar podem ser clientes da empresa?

Devido à nossa ampla gama e diversificação, vários mercados alvo, a nossa preocupação é ter representantes da marca Fravizel em todo o mundo. Aliás, é um objectivo que temos conseguido atingir. Uma das nossas estratégias, para que tal seja mais fácil, é termos a simples preocupação de o nosso portefólio de produtos estar disponível em quatro línguas.

Ilustração que exemplifica onde são utilizados acessórios e máquinas desenvolvidos pela Fravizel - assinalados a verde na imagem

Ilustração que exemplifica onde são utilizados acessórios e máquinas desenvolvidos pela Fravizel – assinalados a verde na imagem

Que decisões e investimentos principais crê terem impulsionado a empresa? Em que nível de importância situa a evolução tecnológica, foi transversal a toda a vossa actividade?

O empenho dos nossos colaboradores é talvez o aspecto mais relevante, pois são eles que nos fazem crescer e garantem o sucesso que temos vindo a alcançar. O facto de as pessoas certas nos acompanharem ao longo dos anos possibilita que façamos coisas acertadas.

As parcerias em que estamos inseridos foram e são fundamentais para o nosso sucesso. O Cluster da Pedra criado em 2009 permitiu-nos acrescentar valor ao sector da Rocha Natural e participar no projeto Inovstone, permitindo-nos integrar a COTEC – Associação Empresarial para a Inovação e ser-nos atribuído o prémio de PME Inovação. No plano externo, a parceria que formámos com a Comercial Guidoni é também essencial para nós uma vez que se trata de uma empresa de referência no Brasil e muito prestigiada a nível mundial. Quero também realçar o facto de os importadores das principais marcas de máquinas confiarem na Fravizel e nós retribuirmos com inteira dedicação à qualidade dos acessórios que fabricamos.

Braço Demolidor controlado remotamente: destina-se a quebrar rochas na zona de admissão dos britadores primários das instalações de trituração, evitando bloqueios

Braço Demolidor controlado remotamente: destina-se a quebrar rochas na zona de admissão dos britadores primários das instalações de trituração, evitando bloqueios

No que respeita à evolução tecnológica, no nosso caso particular incidiu fundamentalmente na adopção de ferramentas avançadas, sobretudo os softwares de projecto e as máquinas eficientes que utilizamos na produção. A criatividade do departamento de I&D e a aposta na formação também têm sido sempre investimentos fulcrais.

O processo de certificação de produtos originou alterações no funcionamento da empresa? Que vantagens identifica?

Sem dúvida que sim. Permite aprimorar o nosso esforço em atingir a máxima qualidade. Queremos sempre inovar, melhorar processos, proporcionar resultados melhores aos clientes.

Como define uma operação sustentável? Os planos e acções tendentes ao desenvolvimento são concretizáveis mesmo sob horizontes de incerteza?

A continuação da inovação e a aposta nas pessoas é o único caminho para o desenvolvimento e sucesso. A sustentabilidade resulta de decisões correctas, partilha de ideias e muito trabalho em equipa.

Máquina de corte CNC por plasma até 30 mm de espessura (aço)

Máquina de corte CNC por plasma até 30 mm de espessura (aço)

Em que medida a pesquisa e a inovação influenciam o fabrico? Realizam prototipagem e ensaios?

A inovação assume diversas vertentes: a dirigida aos produtos, aos processos e aos métodos organizativos. Focamo-nos principalmente nestas três. No que respeita aos ensaios prévios à comercialização, posso dizer que definimos um prazo operacional de seis meses sob vigilância até ao fabrico em série.

Pessoalmente, quais são as suas expectativas relativamente a Portugal? Que objectivos têm enquanto empresa fabril e exportadora?

Portugal é excelente país para estar fisicamente instalado devido à localização geográfica, infraestruturas e acessibilidades, o que facilita a exportação. Além disso, em termos de recursos humanos, os portugueses têm capacidades naturais favoráveis à produção inovadora e eficiente – criam facilmente formas de contornar dificuldades, soluções engenhosas.

Rachador Arranca Cepos: acessório que tem a função de extrair e cortar cepos facultando a reflorestação – produto patentado

Rachador Arranca Cepos: acessório que tem a função de extrair e cortar cepos facultando a reflorestação – produto patentado

No entanto, sentimos que esta preocupação não é comum a todos, havendo infelizmente quem opte por viver somente “à conta” do sistema evitando até profissionalizar-se. No caso das empresas exportadoras, o absentismo ou as greves constantes no sector portuário dificultam muito a eficiência das empresas.

Que percentagem da produção actual se destina a mercados externos e quais são os equipamentos mais exportados?

Sensivelmente metade da nossa produção anual já é exportada e isso compreende vários acessórios e máquinas inovadores para áreas de actividade tão diversas como a extracção e transformação de rocha natural, operações mineiras, construção, dragagens ou explorações florestais. A nossa aposta na qualidade tem impulsionado a internacionalização da marca Fravizel. Queremos continuar a competir pela qualidade e resultados que os clientes obtêm com os equipamentos e máquinas que desenvolvemos.